"Uma pessoa de fora usando: o teste mais barato que existe e como fazer ele esta semana"
"Uma pessoa, uma tarefa, você calado e uma folha com quatro colunas. O teste que mostra se o app funciona sem você do lado, em quinze minutos."
"Apesar de muita gente dizer que a ideia é boa, nem a própria pessoa que chegou com a ideia está usando."
Quem escreveu isso num fórum brasileiro de tecnologia não era programador, e eu já usei essa frase no post sobre quem fez e ninguém usou. Volto nela por causa das primeiras palavras: muita gente dizer que a ideia é boa. Quase sempre disseram olhando o dono mostrar o app no próprio celular, explicando cada tela.
Aquilo não é uso. É apresentação. E apresentação sempre dá certo, porque quem apresenta sabe onde fica cada botão.
Por que você nunca viu o seu app falhar
Não é descuido. Você é a única pessoa que não consegue usar o seu app como um estranho, porque sabe o que ele faz. O seu dedo vai direto no botão escondido, e a sua boca preenche o buraco quando alguém trava: "ah, é ali em cima".
Cada uma dessas frases apaga um problema antes de você enxergar. É por isso que o item 7 do checklist que separa protótipo de produto é escrito do jeito que é: outra pessoa usa sem você do lado? O "sem você do lado" é a parte que importa.
Por que uma pessoa já vale
A área de usabilidade (o estudo de quanto um sistema é fácil de usar) tem uma conta famosa sobre isso. Em 2000, Jakob Nielsen, da Nielsen Norman Group, publicou que nos projetos dele cada pessoa testada encontrava, em média, 31% dos problemas de uso de um site, e que cinco pessoas chegavam perto de 85%. A recomendação dele não é juntar quinze de uma vez: é testar com poucos, consertar, e testar de novo.
O que esse número não prova: ele vem dos projetos de uma consultoria, com sites, há 26 anos, e supõe pessoas parecidas usando o sistema do mesmo jeito. Não é garantia de que a sua primeira pessoa vai achar um terço de nada. Eu uso a conta pelo formato da curva: a primeira pessoa é a que mais ensina, e cada uma a mais ensina um pouco menos.
O teste, item por item
1. Uma pessoa que tem o problema. Não o seu sócio, não quem viu você construir. Se o app é de agendamento pra salão, uma dona de salão. Se não conhece nenhuma, peça indicação na última das cinco perguntas.
2. Uma tarefa, no papel, com o objetivo e sem o caminho. Escreva: "Marque um horário de escova pra sexta às 15h". Nunca: "Clique em Agendar e escolha o serviço". Tarefa que ensina o caminho testa a sua letra, não o app.
3. O celular dela, o link pelo WhatsApp, e nenhuma conta pronta. O cadastro faz parte do teste. Se você cria a conta antes, pula justamente a tela onde mais gente desiste. Antes de mandar o link, faça o teste das duas contas: ela vai entrar com dado de verdade, e não pode ver o de ninguém.
4. Peça pra ela pensar em voz alta. "Fala o que você está pensando enquanto usa, até as coisas bobas." É o método mais usado em teste de usabilidade, e a frase de Nielsen sobre ele é a regra do item seguinte.
5. Você calado. O texto dele de 2012 diz, literalmente: "Shut up and let the users do the talking", algo como "cale a boca e deixe o usuário falar". Você só tem direito a duas frases: "o que você está pensando agora?" e "o que você esperava que acontecesse?". Se ela perguntar "é aqui?", devolva: "o que você faria se eu não estivesse aqui?". Vai doer.
6. Quinze minutos, e travou dois, acabou. Se ela ficar dois minutos parada sem saber o que fazer, a tarefa falhou. Anote onde, e só aí ajude. Ajudar antes é apagar o dado que você veio buscar.
7. A folha, com quatro colunas. Uma linha por tela:
| Tela | Onde ela parou mais de 5 segundos | O que ela disse, com as palavras dela | Terminou? |
|---|---|---|---|
| Cadastro | sim · com ajuda · não |
Fala literal, não resumo: "isso aqui é pra pôr o quê?" vira o texto novo da tela.
8. Uma pergunta no fim, sobre o passado. "Como você marcou o último horário, antes disso aqui?" A resposta mostra contra o que o seu app está competindo. Não pergunte se ela usaria: a resposta educada é sempre sim.
Como ler a folha
- Terminou sozinha: o item 7 do checklist virou "sim" pra essa tarefa. Escreva o nome dela e a data. É a primeira prova de que o app existe fora da sua cabeça.
- Terminou com ajuda: olhe a coluna do meio. O lugar onde ela parou é o próximo pedido pra IA, um só, e uma mudança por vez.
- Não terminou: não é a pessoa. Conserte a tela onde ela travou e chame outra pessoa pra mesma tarefa. Testar de novo com a mesma não vale: ela já sabe o caminho.
A folha não pergunta se ela gostou. Gostar é opinião; terminar é fato.
O que esse teste não mede
Ele mostra se uma pessoa consegue usar. Não mostra se ela volta semana que vem, se o dado dela está protegido, nem o que você faz quando o app cair num sábado.
"Gente de fora usando" é o portão final da fase Opere, a última das três na ordem que eu uso. Ele vem por último por um motivo: colocar alguém de fora em cima de um app sem banco no seu nome, sem ponto de retorno e sem login que protege é colocar uma pessoa em cima de um problema que ela ainda não viu. O teste você faz esta semana, em qualquer fase; o portão só fecha com as outras peças no lugar.
Mas comece por ele. Quinze minutos, uma pessoa, você calado. É o teste mais barato que existe, e o único que ninguém consegue fazer por você.
Fontes
- Jakob Nielsen, Nielsen Norman Group, "Why You Only Need to Test with 5 Users" (18/03/2000; 31% dos problemas por usuário na média dos projetos dele, cerca de 85% com cinco, recomendação de rodadas pequenas): https://www.nngroup.com/articles/why-you-only-need-to-test-with-5-users/
- Jakob Nielsen, Nielsen Norman Group, "Thinking Aloud: The #1 Usability Tool" (15/01/2012): https://www.nngroup.com/articles/thinking-aloud-the-1-usability-tool/