Quanto custa manter seu app no ar por mês, em real
Não é uma conta, são três: construir, manter e crescer. O piso de um app pequeno em real, com câmbio e IOF da semana, e o que a fatura não cobre.
"app CRUD que custa 30 reais por mês só para existir, quando não custa mais."
"Conversei ontem com uma pessoa que gastou 5 mil reais em lovable e gpt/codex fritando na ideia de fazer um sistema na empresa sem contratar um profissional e no fim foi tudo pro lixo."
As duas frases são de fóruns brasileiros, de 2026 (CRUD é o app de cadastro básico: criar, ler, alterar, apagar), e parecem falar da mesma coisa: quanto custa ter um app. Não falam. A primeira é o custo de manter. A segunda é o custo de construir — e construir errado. São contas diferentes, com comportamento diferente, e o susto de quase todo mundo vem de somar as duas como se fossem uma.
Este post separa as contas, põe o número de cada uma em real, com a cotação da semana, e diz o que nenhuma cobre.
As três contas que você está misturando
Conta 1: construir. É crédito de IA. Cada mensagem, cada tentativa, cada "conserta de novo". Tem uma característica que define tudo: ela acaba. Você para de construir, ela para de existir. Os 5 mil reais da frase de cima foram inteiros nessa conta — e o pior caso dela é o loop, que compra tentativa em vez de funcionalidade.
Conta 2: manter no ar. É mensalidade. Hospedagem, banco, domínio. Ela tem a característica oposta: não acaba. Você pode não tocar no app por seis meses e ela chega igual. Os 30 reais da primeira frase são essa conta.
Conta 3: crescer. É cobrança por uso: espaço no banco, tráfego, usuários ativos. Escala com cliente. Zero clientes, zero; mil clientes, alguma coisa — e, se o app cobra, é a única das três que vem acompanhada de receita.
Por que separar importa: as pessoas olham a conta 1 (grande, sem resultado garantido), projetam ela como se fosse mensal, e concluem que "ter um app" custa 5 mil por mês. Não custa. A conta 1 é o preço de entrar. As outras duas são o preço de ficar, e são muito menores do que o medo.
Autópsia do "esperava 25, veio 60"
O caso mais comum de susto tem nome e plataforma. Uma análise de 2026 sobre os preços do Lovable, publicada pela eesel AI (blog de empresa, não fonte oficial — vale como registro do que a comunidade reclama), descreve a cobrança dupla: o plano de um lado e o Lovable Cloud — o servidor e o banco por trás do app — faturado por uso, do outro. Nas palavras deles, "essa cobrança dupla é a fonte mais comum das reclamações de 'esperava 25 dólares, veio 60'".
Fui conferir na documentação oficial como está hoje, e a forma mudou, mas não o mecanismo. O Lovable passou a usar um saldo único de créditos pra três coisas: construir (as mensagens), rodar (hospedagem e banco) e as funções de IA dentro do app publicado. Todo plano, inclusive o gratuito, ganha 20 créditos por mês pra rodar — e a documentação diz que "na maioria dos casos" isso cobre publicar e manter um app pequeno. Quando a cota acaba, a hospedagem passa a comer os mesmos créditos que você comprou pra construir.
Ou seja: o susto deixou de ser uma segunda fatura e virou uma primeira fatura que esvazia mais rápido. Você compra 100 créditos achando que são 100 mensagens, e uma parte deles vira aluguel do servidor. É a conta 2 disfarçada de conta 1 — e por isso ninguém a vê.
Dois detalhes da mesma documentação que valem dinheiro: quando o saldo zera, "o site publicado continua no ar", mas o banco pausa e as funções de IA param. E o Cloud é pausado automaticamente depois de um período sem uso — o que, pra um app com três clientes que entram uma vez por semana, pode significar que o primeiro deles a abrir na segunda-feira encontra o app dormindo.
O câmbio: quanto US$ 25 custa em real, esta semana
Todo plano é anunciado em dólar e chega em real, e o caminho tem três degraus.
Cotação. A PTAX do Banco Central — a taxa oficial de referência — fechou em R$ 5,0918 por dólar em 11 de setembro de 2026 (última disponível quando escrevo). US$ 25 = R$ 127,30.
IOF. Imposto sobre operação de câmbio, cobrado em compra internacional no cartão. A alíquota é 3,5%, restabelecida em julho de 2025 depois de uma disputa entre governo, Congresso e STF que a Agência Brasil registrou. R$ 127,30 + 3,5% = R$ 131,75.
Spread. O banco não converte pela PTAX; converte pela cotação dele, que é maior. Varia de banco pra banco, e eu não vou inventar um número: olhe a última fatura e divida o valor em real pelo valor em dólar. Com spread de 4%, os US$ 25 chegam perto de R$ 137; em alguns bancos, passa de R$ 140.
Então a conta de cabeça é: dólar da tabela × 5,5. Vinte e cinco vira 137. Cinquenta vira 275. Não é cotação, é o que sai do seu bolso.
O piso: quanto custa um app pequeno só existindo
O número mais útil pra quem começa é o piso: um app com poucos usuários, poucos dados, ninguém apressado. Preços da documentação oficial, conferidos nesta semana.
| Item | Serviço e plano | Por mês | A condição que ninguém lê |
|---|---|---|---|
Domínio .com.br |
Registro.br | R$ 3,33 (R$ 40/ano) | Nenhuma. É o único item em real. |
| Hospedagem | Vercel Hobby | US$ 0 | "Para uso pessoal, não comercial." Cobrou do cliente? É o Pro, US$ 20. |
| Hospedagem + banco | Firebase Spark | US$ 0 | Sem cartão. 50 mil leituras e 20 mil gravações por dia no Firestore, o banco dele. |
| Banco | Supabase Free | US$ 0 | 500 MB, dois projetos, e pausa depois de uma semana sem uso. |
| Construção + hospedagem | Lovable Free | US$ 0 | Publica e fica no ar; mas domínio próprio só no Pro (US$ 25). |
Leia a última coluna, porque é ela que define o piso de verdade:
- O piso absoluto — domínio no seu nome, hospedagem e banco gratuitos, sem cobrar de ninguém, aceitando que o banco durma se ninguém entrar por sete dias — é R$ 3,33 por mês. Existe. É honesto dizer que existe.
- O piso de quem cobra — domínio próprio, sem pausa, sem cláusula de uso pessoal — passa por um plano pago em algum lugar: Vercel Pro (US$ 20), Supabase Pro (US$ 25, que tira a pausa e inclui backup diário de sete dias) ou Lovable Pro (US$ 25, pelo domínio). Um deles basta pra maioria. R$ 110 a R$ 140 por mês, mais o domínio.
Os "30 reais por mês só para existir" da frase do fórum cabem entre os dois — e a pessoa que escreveu isso tratou como absurdo. Não é. É o aluguel de um endereço na internet com um banco de dados acordado atrás. O que seria absurdo é pagar isso por um app que ninguém usa, e essa é uma pergunta de outro post.
Uma sinceridade sobre a coluna do meio: esses "US$ 0" são plano gratuito de empresa que quer que você cresça e pague. Valem hoje e mudam sem consulta. Por isso a data está no topo e a fonte no fim.
A folha de três linhas
Pra parar de se assustar, você precisa saber em qual conta cada real está. Leva vinte minutos, uma vez.
Passo 1. Pergunte pra IA, no seu projeto:
"Liste todos os serviços externos que este projeto usa — hospedagem, banco, login, e-mail, pagamento, IA — com o nome do serviço e pra que ele serve. Não mude nada."
Passo 2. Pra cada serviço, três colunas: em qual conta ele cai (construir, manter, crescer), quanto custou no mês passado em real (abra a fatura do cartão, não a tabela de preços), e o que acontece se eu parar de pagar (o site continua? o banco pausa? os dados somem?). A terceira coluna sai da documentação de cada um — as do Lovable e do Supabase estão neste post.
Passo 3. Some a coluna do meio separando por conta. O que você vai descobrir, quase sempre: a conta 1 é a maior e a mais irregular; a conta 2 é pequena e fixa; a conta 3 é zero ou quase — o que é ótimo, porque significa que ainda não custa crescer.
Passo 4. Ponha um teto. Toda plataforma séria tem limite de gasto e alerta — o Lovable tem limite mensal pra recarga automática, o Replit tem limite de uso e orçamento. Configure antes do próximo prompt. É o único item que trabalha enquanto você dorme.
Feito isso, "quanto custa meu app" deixa de ser um medo e vira três números numa folha. E o número que assustava — o da construção — você agora sabe que é o único que dá pra controlar com comportamento: duas tentativas e sessão nova.
O que a conta não cobre
Seria desonesto terminar sem isso.
Seu tempo. Nenhuma fatura mostra as horas que você passa testando depois de cada mudança. Já fiz essa conta: dá horas por mês, e elas não aparecem em dólar nenhum.
O conserto quando quebra. O app do mês 1 não quebra, porque não tem ninguém dentro. O do mês 2 quebra, e o custo de consertar — em crédito, em tempo ou em alguém que você contrata — não está em tabela de preço nenhuma. É a parte da conta 1 que volta depois que você achou que tinha acabado.
O que você não sabe que está pagando. O serviço que o app não usa mais, o segundo projeto no Supabase, o teste que virou produção. A folha existe pra isso.
Os 5 mil reais que foram pro lixo não foram culpa do preço do Lovable. Foram de pagar a conta 1 sem saber onde parar, e sem ninguém do lado dizendo "isso está pronto; isso não vai ficar". Quanto custa manter é uma pergunta de dono — está na lista das dez que separam protótipo de produto. E é uma das mais fáceis. As outras nove têm ordem.
Fontes
- Lovable — Subscription plans (tabela de preços Pro e Business; domínio próprio a partir do Pro): https://docs.lovable.dev/introduction/subscription-plans
- Lovable — Credits and usage (saldo único, cota mensal de 20 créditos de Cloud, o que acontece quando os créditos acabam): https://docs.lovable.dev/introduction/credits-and-usage
- Lovable — Project usage and costs (pausa automática por inatividade, o que puxa o custo de rodar): https://docs.lovable.dev/features/project-usage
- eesel AI — A complete guide to Lovable pricing in 2026 (blog de terceiro, citado como registro de reclamação da comunidade): https://www.eesel.ai/blog/lovable-pricing
- Supabase — Pricing (Free: 500 MB, pausa após uma semana; Pro: US$ 25): https://supabase.com/pricing
- Vercel — Pricing (Hobby "personal, non-commercial use"; Pro US$ 20): https://vercel.com/pricing
- Firebase — Pricing (Spark sem cartão; cotas do Firestore): https://firebase.google.com/pricing
- Registro.br — Preços (R$ 40 por ano): https://registro.br/precos/
- Banco Central do Brasil — Cotação PTAX do dólar, 11/09/2026 (API Olinda): https://olinda.bcb.gov.br/olinda/servico/PTAX/versao/v1/odata/CotacaoDolarDia(dataCotacao=@dataCotacao)?@dataCotacao='09-11-2026'&$format=json
- Agência Brasil, jul/2025 — Entenda como fica o IOF após decisão de ministro do STF (3,5% no cartão internacional): https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2025-07/entenda-como-fica-iof-apos-decisao-de-ministro-do-stf
- Replit — Managing Your Spend (limites de uso e orçamento mensal): https://docs.replit.com/billing/managing-spend