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"1 hora gerando, 10 horas testando: a conta que o vibe coding não mostra no vídeo"

"O vídeo de 10 minutos mostra a hora que a IA gera. As 10 horas de teste ficam fora da edição. De onde elas vêm e a regra que corta a maior parte."

"No modo normal, eu teria levado 10 horas codando e 1 hora testando e corrigindo erros. Com vibe coding, levei 1 hora codando e 10 horas testando e corrigindo erros."

Isso foi escrito no TabNews, o fórum brasileiro de tecnologia, e está guardado na pesquisa deste blog. É relato de uma pessoa, não medição. Mas eu nunca vi uma frase resumir tão bem o que o vídeo de 10 minutos esconde.

Vibe coding, pra quem chegou agora, é construir software descrevendo em português o que você quer e deixando a IA escrever o código.

O que a edição corta

Você já viu o vídeo. Alguém digita um pedido, a tela pisca, o app aparece pronto, a pessoa clica em dois botões e sorri. Dez minutos, "do zero ao app".

O vídeo não mente sobre a hora que mostra. Ele mente sobre o que corta. Corta a terça-feira em que o cadastro parou depois de uma mudança no rodapé. Corta a quinta em que o desconto deu R$ 4,50 em vez de R$ 45. Corta a noite inteira clicando em tudo de novo pra ter certeza de que nada mais quebrou. Ninguém grava isso, porque não vende curso.

E a crítica não é só minha. O próprio guia de vibe coding do Replit diz que o Agent constrói, "mas você decide se o resultado funciona". A frase está no manual. Não está no vídeo.

Por que a conta virou ao contrário

Não é porque você é lento. É uma questão de onde o trabalho mudou de lugar.

Escrever código ficou barato. Conferir código, não. E cada pedido novo à IA pode mexer em qualquer canto do app, então tudo que você conferiu ontem volta a ser dúvida hoje. Uma hora de geração produz código que precisa ser conferido de novo a cada mudança, pra sempre.

Tem um segundo motivo, mais traiçoeiro: a gente não percebe esse tempo. Em julho de 2025, o METR, um instituto de pesquisa americano, mediu 16 programadores experientes resolvendo 246 tarefas reais. Com IA, eles levaram 19% mais tempo. E depois de terminar, ainda achavam que tinham ficado 20% mais rápidos. Cuidado com o que esse número prova: era gente experiente, em projeto grande que conhecia bem, com as ferramentas de 2025, e o próprio METR avisa que o resultado está desatualizado e que não vale pra todo mundo. Ele não prova que a IA te deixa lento. Prova uma coisa menor e mais útil: a sensação de velocidade não é medida de velocidade, nem pra quem programa há anos.

O vídeo vende a sensação. As 10 horas são a medida.

"Mas a plataforma testa sozinha"

Testa, e vale saber como. O Replit tem um recurso chamado App Testing: a IA abre seu app num navegador e clica como um usuário. A documentação diz que ela decide sozinha quando testar, que isso é cobrado pelo esforço gasto, e que funciona em aplicação web. Não fala em guardar o teste como arquivo pra repetir depois.

Ou seja: é um robô fazendo a sua rodada de cliques. Ajuda. Mas cada rodada é feita do zero de novo, e paga de novo.

E aqui está a ideia do post inteiro:

Teste feito na hora é gasto. Teste escrito é guardado.

Toda conferência que você faz clicando, você joga fora quando fecha o app. Na próxima mudança, faz tudo de novo. As 10 horas não são 10 horas de testes diferentes. São as mesmas conferências, refeitas.

O que fazer hoje: a regra da segunda vez

Não precisa de ferramenta. Precisa de uma folha (ou uma nota no celular) e de uma regra.

1. Na próxima sessão, anote cada coisa que você conferir. Uma linha por conferência, do jeito que vier: "login com a conta de teste", "total do pedido com cupom", "foto aparece no perfil". Não organize. Só anote.

2. Do lado de cada linha, uma pergunta: eu já conferi isso antes? Se não lembra, a resposta é sim.

3. Conferiu pela segunda vez? Escreve. Essa é a regra. A primeira conferência é investigação. A segunda já é repetição, e repetição tem que virar texto, com o que você faz e o que precisa aparecer. Exemplo: "pedido de 3 marmitas de R$ 20 com cupom de 10%: o total tem que dar R$ 54".

4. Decida onde a linha escrita vai morar. São dois lugares:

  • Se é um caminho (entrar, cadastrar, pagar, sair), ele vai pro roteiro de cinco cliques que roda antes e depois de cada pedido.
  • Se é uma regra com número (o total, o desconto, o prazo), ela merece virar teste automático: um pequeno programa que confere a regra sozinho, em segundos, sem ninguém clicar. Como pedir o primeiro e como rodar está neste post.

5. No fim da semana, conte. Quantas linhas apareceram duas vezes ou mais? Essa é a parte das suas 10 horas que era repetição. Na minha experiência, é a maior parte. A sua lista vai dizer a sua.

O que sobra depois disso, a conferência que é realmente nova, é trabalho legítimo. Ninguém tira isso de você, e nem deveria. O que dá pra tirar é você refazendo à mão, toda semana, a mesma prova que já fez.

Era uma parede de várias

Saber que você virou o testador do próprio app é o diagnóstico. A regra da segunda vez corta a repetição. Mas ela não diz quais conferências deveriam existir e você ainda nem pensou, não diz o que fazer quando uma linha escrita falha, e não diz em que fase do app vale escrever teste e em qual ainda não vale.

Isso tudo tem ordem. A diferença entre as 10 horas e as 2 não é digitar mais rápido. É saber o que confere, quando, e o que já está guardado.

Fontes