← todos os posts

"\"Gastou 5 mil reais em Lovable e GPT e foi tudo pro lixo\": a história por trás dessa frase"

"R$ 5 mil em crédito de IA e nada aproveitado. O padrão por trás da frase, o que ela teria custado com três hábitos, e a ficha de parada pra hoje."

"Conversei ontem com uma pessoa que gastou 5 mil reais em lovable e gpt/codex fritando na idéia de fazer um sistema na empresa sem contratar um profissional e no fim foi tudo pro lixo."

Quem escreveu foi um dev, num fórum brasileiro de tecnologia, contando o caso de outra pessoa. É relato de terceiro, de segunda mão: não sei quem é a pessoa, não sei o que era o sistema, não sei em quantos meses o dinheiro foi. Então não vou inventar a vida dela. Vou fazer outra coisa: reconstruir o padrão, porque essa frase eu já ouvi com outros números e outras ferramentas, e a história por trás é quase sempre a mesma.

Ela não foi burra

Primeiro, uma defesa. Tentar fazer o sistema da empresa sem contratar ninguém é uma decisão razoável. As ferramentas são vendidas exatamente pra isso, e em muita empresa a alternativa é esperar meses na fila do TI. A pessoa apostou num caminho que existe. O que deu errado não foi a aposta. Foi o jeito de andar nele.

Quanto é R$ 5 mil em crédito

Pra ter a ordem de grandeza: com o dólar a R$ 5,22 (cotação de referência do Banco Central em 2 de outubro de 2026), R$ 5 mil dão uns US$ 957, e um pouco menos depois do IOF e da margem do banco no cartão internacional. No Lovable, crédito extra no plano Pro sai a US$ 15 a cada 50. Se tudo tivesse ido pra lá (não foi, a frase fala de GPT e Codex também), seriam mais de 3 mil créditos.

Três mil créditos é muito pedido. Não é o preço de um app que não saiu. É o preço de centenas, talvez milhares, de tentativas que não foram conferidas. E tem um detalhe na documentação do Lovable que fecha a conta: mensagem que você desfaz depois continua contando no consumo. Jogar fora não devolve nada.

O padrão, em três ausências

Não sei o que aconteceu com ela. Sei o que acontece quando a frase termina em "tudo pro lixo", e são três coisas que faltam, nesta ordem.

Faltou escopo. "Um sistema na empresa" não é um pedido, é uma esperança. Sem dizer qual a primeira tela, quem usa e o que precisa funcionar na semana um, cada conversa com a IA inventa um pedaço novo. O cadastro de clientes vira estoque, o estoque vira financeiro, e nada termina. É o que a gente chama de definir, o "D" do jeito que eu trabalho, e é a parte mais barata do caminho, porque se faz conversando, sem gastar crédito de construir.

Faltou conferência. A IA diz "pronto" e a pessoa pede a próxima coisa. O erro do pedido 12 só aparece no pedido 30, e aí já tem dezoito camadas em cima dele. Conferir o que mudou entre uma resposta e outra é de graça; descobrir depois custa o que custou.

Faltou ponto de retorno. Esse é o que transforma "deu errado" em "foi tudo pro lixo". Sem um lugar marcado onde as coisas funcionavam, cada conserto é feito por cima do anterior, até o dia em que ninguém sabe mais qual versão era boa. Aí a única saída que sobra é jogar fora. Com um ponto de retorno, o pior caso é perder uma tarde.

Repare que nenhuma das três é programar. As três são decisões de quem manda no projeto.

O que teria custado fazer certo

Não sei se o sistema dela tinha salvação, e não vou dizer que os R$ 5 mil viravam um app. Alguns sistemas precisam mesmo de alguém que programa, e saber isso cedo também é economia. O que eu sei é que, com os mesmos R$ 5 mil, os três hábitos acima teriam garantido uma coisa: o que ficasse pronto, ficava. A primeira tela, conferida e marcada, não ia pro lixo junto com o resto.

A ficha de parada, pra hoje

A ferramenta mais simples contra essa frase cabe num papel, e você preenche antes do próximo pedido:

FICHA DE PARADA. Projeto: ______________

1. A primeira coisa que precisa funcionar (uma tela, um uso):
   ________________________________________

2. Teto de gasto até ela funcionar: R$ ______
   (some o que já gastou; olhe a fatura, não a memória)

3. Na metade do teto, eu confiro:
   [ ] a coisa do item 1 funciona de ponta a ponta,
       com uma pessoa de verdade usando, sem eu do lado?
   [ ] existe um ponto marcado onde ela funcionava?

   Dois "sim": sigo até o teto.
   Algum "não": paro de pedir e chamo alguém pra olhar.

O item 3 é o que salva. A maioria das pessoas para quando o dinheiro acaba; a ficha faz você parar na metade, enquanto ainda dá pra mudar de caminho com o que sobrou. E "chamo alguém pra olhar" não quer dizer desistir. Quer dizer que a sexta tentativa sozinho custa mais do que uma hora de alguém que já viu esse erro.

Era uma parede, e ela tem vizinhas

Escopo, conferência e ponto de retorno são as três primeiras paredes, e a ordem importa: sem escopo, não há o que conferir; sem conferir, o ponto marcado pode ser um ponto quebrado. Depois delas vêm outras: banco no seu nome, login que protege, custo mensal. Nenhuma delas é programar. Todas são ordem.

Preenche a ficha agora, com o projeto que está aberto na outra aba. Se o item 2 te assustar, é porque a soma já devia ter sido feita.

Fontes