"Cada setor criando o próprio sistema: o checklist pra fazer isso na empresa sem virar o problema do TI"
"Você construiu o sistema do seu setor sem esperar a fila do TI. A ficha de uma página que responde o que o TI vai perguntar, antes que ele pergunte."
Numa discussão num fórum brasileiro de tecnologia, alguém descreveu o que está acontecendo dentro das empresas:
"Cada setor agora está criando seus próprios sistema na base do vibe coding."
"O que antes seria contatar o setor de T.I para resolver/criar uma solução, agora virou 'Eu resolvo o problema com IA'."
Vibe coding é construir pedindo pra IA, sem escrever código. E a resposta que veio logo depois foi de medo:
"Prato cheio pra hackers, oq deve ter de vulnerabilidade aí não é brincadeira."
Já contei a versão disso que dá errado, com o sistema da clínica morando no e-mail pessoal de quem saiu. Este post é pra quem está do outro lado: a pessoa que construiu, que ainda está na empresa, e que não quer ser a próxima história.
A fila era real. O medo também
A cena é conhecida. Você é gerente, coordenadora, analista. Tem uma ferramenta que o seu setor precisa há meses, e ela está na fila do time de tecnologia, atrás de coisas mais importantes pra eles. Um dia você abre o Lovable, e no domingo o setor tem o sistema.
Isso não é rebeldia. É a fila sendo resolvida por quem sente a dor, e é bom.
Agora, o medo do fórum também não é desdém. Quem cuida de TI responde por coisas que você não vê: quem tem acesso a quê, onde estão os dados dos clientes, o que acontece quando alguém sai da empresa. E a LGPD, a lei de proteção de dados, não deixa dúvida de quem responde: o "controlador" é a pessoa ou empresa "a quem competem as decisões referentes ao tratamento de dados pessoais" (art. 5º, VI). Num sistema da empresa, com cliente da empresa, isso é a empresa, e não você nem a ferramenta.
Então a pergunta não é "posso ter feito isso?". É "consigo mostrar pro TI, em uma página, que o que eu fiz não virou um buraco?". Consegue.
A ficha: oito perguntas, vinte minutos
Responda por escrito. Se a resposta for "não sei", escreva "não sei". É informação útil pro TI, e mais honesta que um "acho que sim".
1. Que dado tem lá dentro? Liste as colunas das tabelas principais. Tem nome e telefone de cliente? CPF? Dado de saúde, salário, conversa de atendimento? Marque o que é dado de pessoa.
2. De quem é a conta? O e-mail que criou a ferramenta e o banco de dados é da empresa ou é o seu pessoal? Se for o seu, essa é a primeira coisa a mudar, e o passo a passo da transferência está aqui.
3. Quantos donos tem? Se só você entra nas configurações, a empresa depende de você estar disponível. Mínimo de dois, e o segundo de preferência é alguém do TI.
4. Onde está o código? O Lovable sincroniza o código com o GitHub, o lugar onde programadores guardam código, e a documentação oficial diz que essa conexão pode apontar pra uma "organização", a conta da empresa no GitHub, e não só pra uma conta pessoal. Se a empresa tem uma, peça pro TI te dar um espaço lá. Aí eles podem ler tudo sem você mandar arquivo por e-mail.
5. Quem acessa o quê? Quem usa o sistema entra com o próprio login, ou tem senha compartilhada no grupo? Cada pessoa vê só o que precisa? O teste das duas contas responde a segunda parte em dez minutos, só com o navegador.
6. Que chaves e serviços ele usa? O sistema manda e-mail, consulta CEP, conversa com outro sistema da empresa? Cada uma dessas conexões usa uma chave, uma espécie de senha entre sistemas. Liste quais são e onde estão. Como achar uma exposta em dois minutos.
7. Existe cópia, e ela já voltou? Se os dados sumirem hoje, de onde eles voltam? Backup que nunca foi restaurado é esperança. O teste está aqui.
8. Quem mantém quando você estiver de férias? Um nome. E uma folha com o que fazer se o sistema parar, escrita pra quem não estava lá quando ele foi feito.
O que fazer com a ficha
Marque trinta minutos com o TI e leve a ficha impressa. Abra com uma frase:
"Não vim pedir pra vocês construírem. Vim mostrar o que eu construí, onde ele mora, e o que eu ainda não sei."
Isso muda a conversa. Você não chega pedindo perdão nem pedindo permissão: chega com a informação que eles precisariam levantar sozinhos. Os "não sei" viram a pauta da reunião, e quase sempre o TI resolve alguns na hora, porque o difícil pra eles nunca foi resolver. Era descobrir o que existe.
E tem um bônus legal. O artigo 37 da LGPD manda o controlador "manter registro das operações de tratamento de dados pessoais que realizarem". A sua ficha, com os itens 1, 2 e 5, é o começo desse registro pro seu sistema. Não substitui o jurídico da empresa, mas é bem diferente de o jurídico descobrir o sistema por acaso.
O que a ficha não faz
Ela mostra onde estão os buracos. Não tapa nenhum.
Trocar a conta de dono, ligar a regra que separa um usuário do outro, separar o ambiente de teste do de produção, ter um ponto de retorno quando a próxima mudança quebrar o cadastro: cada um desses é um passo, e eles têm ordem. Ligar regra de acesso num banco que ainda está na sua conta pessoal é arrumar a casa de outra pessoa.
O setor que constrói o próprio sistema não é o problema do TI. O problema é o sistema que ninguém sabe que existe. Com a ficha, ele existe. Daí pra frente, é seguir a ordem.
Fontes
- Lei nº 13.709/2018 (LGPD), texto compilado no Planalto (art. 5º, VI; art. 37): https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/l13709.htm
- Lovable, documentação da integração com o GitHub (conexão com conta pessoal ou organização; sincronização nos dois sentidos): https://docs.lovable.dev/integrations/github
- As falas do fórum (TabNews) estão no swipe file da pesquisa deste blog.